Sobre o ser humano - III
Na raíz das pessoas está uma vontade imensa de evitar o esquecimento. Contornar o desaparecimento da memória e da percepção dos outros. E é por isso que as pessoas insistem em acordar e em mover-se, diariamente, por mais que o quotidiano lhes seja igual; por mais que a efemeridade das coisas, do tempo e do próprio espaço que existe agora, se lhes apresente configurada no cérebro como certa. No fundo, e numa perspectiva inspirada na delinquência do nascimento humano, os homens existem porque querem. E quanto mais existem, mais desejam existir, sempre assim, por aí adiante, até que se insatisfazem permanentemente e passam a acordar ainda mais irados, perseguindo a arquidelinquência do dia em que vieram ao mundo: aquele dia vazio, com tudo por preencher. O problema surge com o preenchimento desse tal vazio inicial. Com a aglomeração dos sentimentos, dos conceitos e dos conhecimentos, o ser humano passa a gerir um frágil leque, que se emaranha no seu íntimo. Esta gestão deve ser ternária: sentimento, remissão ao conceito, aplicação do conhecimento. Sempre assim, numa espiral a caminho da divindade, isto é, a prestação final. Há quem lhe chame morte.

Mas eu, que sou positivista, acredito que seja um mega-concerto no Estádio da Luz, com as bancadas a abarrotar de gente que grita "Gui-ta-rris-ta! Gui-ta-rris-ta! Gui-ta-rris-ta!" Será então que me insatisfaço, porque me apercebo da efemeridade de todos aqueles seres humano. Fico com medo de ser como eles. Concebo esse medo e, como tenho conhecimentos para aplicar, descarrego-os numa guitarrada poderosa. A multidão incendeia-se e, a julgar pelo magote de corpos em combustão, eu, a banda, os roadies e a produção, mais os stewards, que os deve haver, morremos todos intoxicados.

Reparem agora: não só o momento será histórico e ficará para a posteridade como, com habilidade e uma pontinha de sorte, serei o responsável pelas últimas imagens e sensações nos corpos e cérebros de milhares de pessoas. Se isto não é contornar o desaparecimento da memória e da percepção dos outros, é o quê entãp? Ok, pronto, chamem-me génio.