Querida Guitarra
quarta-feira, dezembro 29, 2004
  Mensagem de Ano Novo
Quando me perguntavam, era eu criança, "o que queres ser quando fores grande?", eu respondia, como as crianças respondem, "eu quero ser pastor da Igreja Universal do Reino de Deus ou então eu quero ser Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro ou então eu quero ser delegado sindical numa metalúrgica do centro do país ou então quero ser um Guitarrista Famoso". A minha mãe olhava-me logo com aquele olhar de "deves, deves... tiras direito e nem pias, que eu não te ando a sustentar para seres um agitador de multidões". Mas, mesmo perante a sua má vontade, mesmo de frente para sua atitude de me virar as costas ao futuro num presente já longínquo, tudo se tornou passado e hoje sou o que sou.

Esta pequena mensagem serve para vos inspirar para o Ano Novo que se aproxima a cada hora que passa. Porque é assim que isto funciona, as horas vão passando e os dias seguintes começam a vir direitos a nós, tipo autocarro em contramão, na A1, em período de férias do Natal. Assusta.

Feliz Ano Novo! Que concretizem os todos os vossos desejos. Eu sei que não vão conseguir, mas podem pelo menos tentar.
 
quarta-feira, dezembro 22, 2004
  Nos sapatinhos dos cantores



O Pai Natal Guitarrista tem prendas para os meninos. Vá, cheguem-se mais perto.



-Xutos & Pontapés: benzodiazepine (genérico) ou tysabri (uma embalagem, either way)



-Toranja: dicionário e fita métrica;




-Jorge Palma: 1 fígado;



-Luís Represas: espelho + Happy King TX 9000 DHQ (original);



-Paulo Gonzo: Inquine (uma lata);



-The Gift: estrogéneo (1 pacote);

-UHF: Bio-Medicin (restaurador - 1 bisnaga de 40 ml.);



-Delfins: uma Magnum.




E, por este ano, é tudo. Para o ano há mais. Espero que tenham gostado das vossas prendinhas.
 
terça-feira, dezembro 21, 2004
  Milene e Seus Três Homens (parte III)
"O que é que eu acho do amor?... Bem, das vezes que fiz curti e quero repetir... Mas nunca digo desta água não beberei."
(Milene, diva, vocalista e baixista dos Milene e Seus Três Homens)

Quando comecei a contar a história da minha passagem pelos Milene e Seus Três Homens e da minha relação com Milene, a diva, durante esses tempos remotos e saudosos, comecei por advertir os leitores para o seguinte: "há duas coisas férteis em amor e desgostos de amor: a adolescência e o submundo dos artistas rock". Ora, esta história retrata, de uma só vez, a intromissão de um adolescente no sub-mundo do rock e a experimentação de drogas leves, bem como os primeiros contactos com bancos de trás de FIAT's Uno. E não estou a falar de viagens.

Portanto, podem concluir os mais sensíveis que a melhor atitude a tomar é interromper de imediato a leitura deste texto. Vai tudo acabar em drama, tragédia, revoluções interiores, pequenas vinganças, alguma violência física, grandes desgostos, o fantasma da separação eterna, um último charro depois de umas últimas carícias íntimas, sangue nos lençóis, duas luxações - uma em cada cotovelo -, anti-depressivos, e, por fim, a separção da banda, cada um para seu lado. E o baterista suicida-se, mas não quero tirar o suspense.

Regressemos à época em que o sucesso dos Milene e Seus Três Homens não parava de crescer. Entrámos em tournée pelos concelhos de Oeiras, Amadora e Cascais. Tínhamos um público diversificado. Aparecemos num cantinho do Blitz, vinha eu e a Milene na foto, a dar um beijo em palco: "O beijo do futurismo electro-rock-romântico", titulava o repórter. Éramos elogiados. Principalmente a Milene. E é aqui que tudo muda.

Se alguém se interrogou, alguma vez, por eu nunca ter falado do Gonçalo Frota (não, não é aquele gajo grande da Quinta das Celebridades...), pois é esta a explicação: Milene. E, garanto!, os editoriais e crónicas desse amiguinho, no Blitz, haveriam de me ter rendido pelo menos uns dez ou doze textos. Mas não. Eu, aos meu inimigos, não escrevo mal deles nas costas.

Antes de nos separarmos, eu e a Milene, decidimos aproveitar uma última noite - o Frota nunca soube, mas pode saber agora; ele visita o blog, às vezes. Enquanto fumávamos uma últmia ganza, depois de...do... hrum... Milene confessou: "não é que eu não goste de ti, miúdo. Mas estas cenas são raras... as oportunidades, 'tás a ver?" Eu continuava, mas vocês já perceberam a ideia. O preço da fama, do rock e da adolescência: buracos no coração.

A história do baterista é mesmo verdade, suicidou-se. Rui Freire, se quiserem confirmem no arquivo de identificação de Lisboa. Peçam o registo da autópsia, está lá tudo: "hemorragias internas várias resultantes da ingestão de objectos pontiagudos e/ou cortantes". Eram pontas de cordas de bronze, que ele cortou em pedacinhos com um alicate e comeu, em seguida. Aparentemente ele também andava com a Milene e não suportou que ela se tivesse apaixonado pelo Frota.

Mas Milene acabou também por pagar caro o seu sucesso fácil. Não sabem?... Eu conto. Eu hoje falo de tudo, que há coisas que não se podem guardar para sempre. A Milene estava grávida do baterista, mas não sabia. Mas depois soube, porque a barriga lhe inchava e pronto, estas coisas têm sempre explicação. O Gonçalo Frota não gostou de saber que não era o pai da criança e saiu de casa - eles já estavam a viver juntos, nos Olivais Sul, num T1 miserável, quarto andar sem elevador, ou coisa assim (ah!, a "fama", dizia ela...). Sem dinheiro, sem amigos, sem instrumentos, sem banda e sem Frota, Milene temeu pelo seu futuro. Decidiu desmanchar o que o bateria fecundara com tanta paixão - e que poderia ter sido criado por matéria minha! A operação correu mal e Milene foi encontrada duas semanas mais tarde, sobre a cama ensanguentada, com um espeto na mão direita e o rosto, já tolhido e em putrefacção, mas denotando arrependimento e conservando a expressão congelada de um último olhar aflito. Não nasceu ninguém e duas pessoas morreram - a fama, eis o seu preço! Entretanto, Gonçalo Frota subiu na vida e hoje assina com o nome todo, em vez das iniciais por baixo dos trechos mal copiados a partir da agência Lusa.

No funeral de Milene, a diva, conversei com os membros que restavam dos Nome Curioso. Fizemos uma jam's, mais tarde, e bebemos cervejas. Tempos depois, pouco restava de toda esta tragédia. A vida avança, as pessoas evoluem, crescem, às vezes esquecem. Mas, se há imagens que ficam, a de Milene apagada é uma delas. O rosto, semi-reconstruído e sem vida, simbolizando o vazio que veio ao mundo quando o espeto que segurava na própria mão a esventrou com violência, raiva e desespero. Ser um ídolo não é fácil e nem todos somos fortes.
 
segunda-feira, dezembro 20, 2004
  Aos amigos!


Eu podia criticar o Natal - seria legítimo que escarnecesse da quadra, por tudo quanto pode observar-se do que ela representa, hoje em dia, para a maioria das pessoas. Porém, uma mensagem que recebi, sexta-feira passada, inspirou-me de tal modo que encarnei o espírito natalício. O genuíno.
Assim, dedico, em forma de brinde, este post aos meus amigos.

-aos que perdi!, porque me lembro de os ter tido.

-aos invisíveis!, porque, desse lado do monitor e sem que me conheçam, se dão ao trabalho de ler os meus desabafos.

-aos que partiram!, porque sinto a vossa falta. Porque faziam tanta falta aqui.

-aos mais recentes!, porque me rejuvenesceram o mundo e os sentimentos e me acrescentaram falta de tempo onde antes havia tempo desperdiçado.

-aos reencontrados!, porque me mostraram que tudo é possível e que a vida não pode ser sempre a perder.

-aos de sempre!, porque vos vi crescer e vocês a mim. Porque, com o tempo, tudo mudou em nós menos o nosso abraço. Porque somos raízes uns dos outros.

À nossa!


 
quinta-feira, dezembro 16, 2004
  Hum...


Esta cara não me é estranha...

Aliás, faz-me lembrar imagens recentes, recolhidas a bordo do navio-escola Sagres, esse bacalhoeiro de bom nome. Havia lá um senhor com um boné parecido. Só não sei se tocava pífaro. Há quem diga que sim...
 
quarta-feira, dezembro 15, 2004
  Milene e Seus Três Homens (parte II)
"Um ícone, eu?!... UMA ícone! UMA!"
(Milene, diva, vocalista e baixista dos Milene e Seus Três Homens)


Eu estava habituado a ser visto como objecto estranho, nos tempos da secundária. Ouvia Sonic Youth, enquanto a esmagadora maioria do pessoal se dividia entre a nostalgia rimbaudista dos Doors, a modernice inestética rock-star dos Aerosmith e a senilidade quadrada e repetitiva dos Stones. Havia umas aves raras que andavam numa de ser punks e tinham correntes, cães fora de prazo, xámon e vinis dos Sex Pistols. Eu até curtia mais Clash, mas era outra onda. E só tive uma cadela, gorda e lustrosa, que não sabia andar de monociclo. Eu não era punk, eu era diferente. Também havia malta, tipo os "meninos", que curtiam os R.E.M, e isso até nem tinha nada de mal. Mas também não era muito positivo e o look Michael Stipe era um bocado duvidoso. Porém, não me vou alongar para não dizerem que sou politicamente incorrecto. Não quero relacionar o aspecto do Mickey com o Tom Hanks no Filadélfia.

Abreviando, eu era um excluído. Por vontade própria e por inevitabilidade. Era um inadaptado. Não daqueles tipo James Dean, rebelde sem causa; eu era mais um subversivo sem importância. E as pessoas estranhavam-me. Na maior parte dos casos, porque sempre que reparavam em mim, sentiam que era a primeira vez que o faziam. Nunca cultivei muito a cena do"ser popular" e acho que as pessoas tinham dificuldade em memorizar a minha pessoa de então - por um lado é bom, porque assim tenho um passado limpo.

Foi, portanto, uma novidade para toda a escola quando o povo começou a dar por mim enroladinho na escultura da Milene atrás dos balneários. Aquilo eram beijos bué de sérios que a gente dava. Havia dias em que chegava a casa até me doíam os maxilares inferior e superior, os malares e o estômago, tal era força com que ela me sugava a língua (cheguei a ter aftas, derivado destas nossas aventuras pré-sexuais...).

E a escola assistia sem reacção: eu, o puto esquisito, a degustar toda aquela fartura e sem partilhar com ninguém. A nossa relação ia ganhando contornos cada vez mais sérios. Eu até acompanhava a Milene nos tempos mortos em que faltava às aulas de Português e íamos para o Tanga's beber sangria, fumar cigarros e ler a Bravo na versão alemã. Eu não percebia uma palavra de alemão, mas ia percebendo quais as estrelas mais importantes da música da época porque via as fotografias e associava às bandas que apareciam no Clip Clube. A Milene também não percebia uma sílaba de alemão, mas parece-me que não se ralava com isso das bandas nem via o Clip Clube. Ela era mais de olhar para as fotos do Richard Dean Anderson, do Luke Perry, do Bon Jovi ou do Axl Rose, que era tudo rapaziada bem cotada na bolsa das paixões das adolescentes.

Tipo, a dada altura a minha personagem já tinha peso no eco-sistema escolar específico. Os meus seis anéis passaram de aberração a estilo; o cabelo desgrenhado, de foleirice a revivalismo paleolítico; os all-star rasgados, de sinal exterior de pobreza a imagem de marca. Penso que, de alguma forma, acabei por contribuir decisivamente para a implantação da imagem e do culto "grunge" na Europa Ocidental - já disse isto numa entrevista ao Blitz.

Para reforçar a minha ascensão meteórica no universo sócio-estudantil, os Milene e Seus Três Homens granjeavam novos fãs em movimentos cada vez mais expressivos. Aos poucos, o nome Nome Curioso varria-se da memória musical colectiva, sendo substituído pela nossa designação poderosa. Cada concerto nosso era um marco na história das vidas daqueles teenagers sem ídolos. E esses ídolos iam nascendo aos poucos, íamos sendo nós: os rapazes suspirando por Milene; as raparigas fazendo de mim um ícone de uma geração. Havia quem gostasse das nossas músicas.

(continua)
 
terça-feira, dezembro 14, 2004
  Ora... o grunge
(Versão comentável... espero eu.)

Tenho recebido diversas mensagens - e sob diversas formas, do sms ao e-mail, passando pelo fax e pela carta registada - a dizer "ó Guitarrista, tu que és cool e sábio e tens influência e fama, intercede por nós: o Eurico Monchique foi abusivo nas suas observações sobre o grunge antes e depois de Cobain na última edição do Y, esse suplemento esquizóide do pasquim que acompanha o Inimigo Público". E eu aproveito para responder a todos de uma assentada: não, não foi. O gajo até esteve muito bem, com rigor, imparcialidade e uma visão distante que se aconselha a qualquer jornalista de música.



Vamos por partes. O Eurico (eu conheço o gajo, está bem? Pronto.) escreve um texto acerca das edições recentes da "box" multiusos de Nirvana, da qual constam inéditos, raridades e outros eteceteras vendáveis na altura do Natal, e da colectânea "best of" de Pearl Jam 1994-2004. Até aqui, tudo bem, até porque o Eurico (o gajo é fixe, a sério, eu posso tratá-lo por Eurico, na boa, tipo, por "tu", mesmo...) assenta a sua perspicaz análise no balanço dos 10 anos pós-Cobain, que ele considera, e com razoável tino, 10 anos pós-"grunge". Entenda-se "grunge" como fenómeno, e não como estilo musical (ele explica e bastante bem, aconselho a leitura - para quem não sabe do que falo, aconselho o visionamento do documentário "Hype"; só para ilustrar, nesse filme os donos da Sub Pop, mítica editora de Seattle, saem-se com uma pérola para a história acerca deste fenómeno: "sempre fomos uma editora a fingir; quando os Nirvana apareceram e se tornaram estrelas, nós fingíamos ser uma editora milionária e não tínhamos um cêntimo; hoje, chegam aqui os curiosos e jornalistas e temos que fingir que somos pobres e desconhecidos, quando temos as contas bancárias bem atestadas e toda a gente conhece a Sub Pop em todo o lado").



E diz o Eurico que os Nirvana e, especificamente, o Kurt Cobai, criam o "grunge" enquanto fenómeno massificado. É verdade e é incontestável. Venham cá falar de Mudhoney, Green River, Mother Love Bone, Soundgarden... Quem é que os conheceria se o power-trio de Olympia não tivesse um dia assinado pela Geffen? Got the point?

Posto isto, trata o Eurico de elogiar a capacidade criativa de Cobain&Friends - reparem que, em 5 anos de miserável existência, os Nirvana terão deixado mais músicas para a posteridade do que qualquer outra banda da sua geração, mesmo aquelas que tiveram maior longevidade... tipo Pearl Jam. Got it?



O Eurico, que é um rapaz atinado e bem informado, ainda se dá ao trabalho de classificar bandas em neo-grunge (período de grande efervescência no período imediatamente após o suicídio de Cobain: Smashing Pumpkins, Stone Temple Pilots, Helmet, etc.) e "new"-grunge (período de revivalismo que tem um boom no final dos '90s: Nickleback, Three Doors Down, Puddle of Mud e outras ofensas auditivas semelhantes). O Eurico vai mais longe e considera como positivas as neo-grunge, o que é legítimo e justo - falo por mim, que adoro STP ou Smashin, bandas que me influenciaram imenso. O Eurico menciona mesmo, no contexto "grunge", bandas como Mudhoney, Alice in Chains e Soundgarden (eu gosto de algumas coisas, mas, em termos de expressão, são infinitamente inferiores a Nirvana, Pearl Jam ou mesmo Smashing Pumpkins), dando-lhes a importância que merecem: estavam no lugar certo à hora certa e faziam música de boa qualidade, pelo que a vaga os apanhou também. Contudo, não sejamos inocentes: sem Nirvana, nunca (atrevo-me mesmo a dizer NUNCA!) chegaríamos a ouvir em Portugal qualquer uma destas três bandas. Da mesma forma que, decerto, não ouvimos (nem nunca ouviremos) falar de milhares de outras pérolas espalhadas pelo enorme país de onde estas vieram. Se têm dúvidas, pensem num caso paradigmático: quantos de vós tinham ouvido falar de Jeff Buckley até à sua morte (prematura, é certo)? E este até era filho de gente famosa (Tim Buckley). Após a sua morte, deu-se um (pequeno) boom "buckleyano". É natural, acontece quase sempre. Hoje, Jeff Buckley é mais um jovem santo de pau no altar do rock'n'roll. Com mérito? De certeza. Com influência? Nem tanto (se bem que os Muse vão lá beber muita águ... vodka ou coisa assim).

Voltemos a Cobain: aquele tiro na cabeça foi uma bênção para a revitalização dos movimentos musicais vigentes que, de uma só vez, ganharam o seu mártir e garantiram o estatuto de um som que tem origem numa fusão ambígua (e com muitas variáveis...) entre punk-rock, garage-rock, hard-rock e heavy-metal. Não era fácil, numa altura em que as coisas variavam, ao nível do mainstream, entre o pop mais banal de Madonna e Michael Jackson e o hard-rock consagrado de Guns'n'Roses. Para além disso, aquilo que era um culto (o "grunge") tornou-se uma moda. O Eurico também diz isto e eu concordo com ele.

Até aqui, não tenho grandes dúvidas: Cobain e Nirvana não foram influentes; foram antes fundamentais! A um tempo: fecundadores, parteiras e coveiros do movimento mais importante da música mundial desde os tempos da Madchester. E é assim que nascem os mitos. Mais: é escusado tentarem matar mitos como este. É simplesmente demasiado tarde.

O Eurico continua e é nesta continuação, que marca o final da sua mui-positiva e certeira análise, que a agitação cresce - demonstrando que, felizmente, nem tudo em Portugal era Nirvana e há por aí muito Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains; a diversidade é saudável e podemos aprender uns com os outros... o que não podemos é atribuir importâncias erradas às coisas só por causa do nosso gosto pessoal. Há que distinguir o que gostamos do que tem peso e influência quando se faz uma análise (como foi o caso) do que marcou uma geração e do que significam estas edições no panorama actual.

O Eurico classifica a "box" de Nirvana (três CD e um DVD, contendo inúmeros inéditos, versões alternativas, ensaios, home-movies, etc...) com um honroso mas distante da perfeição 8/10. E, em seguida, classifica o best of Pearl Jam com um 7/10, alegando que a banda de Vedder e Gossard é "esforçada" mas que lhe falta "vitalidade". Se querem que vos diga, concordo. Comparando a inspiração de uma e de outra banda, os Nirvana estão uns degraus acima. São mais puros, mais rudes, mais naïf e mais "sonoros". Confere. Se um leva 8/10 numa caixa que acrescenta novidade, os outros levam 7/10 numa edição que traz mais do mesmo - coisas que, provavelmente, toda a minha geração até tem lá por casa, ora em CD, ora em versões da velhinha cassete pirata... Got it? Eu votava no Eurico Monchique para primeiro-ministro, digo-vos já. Eu até o trato por tu...
 
segunda-feira, dezembro 13, 2004
  Milene e Seus Três Homens (parte I)
"Se gosto que me venerem?... Sim, é simpático."
(Milene, diva, baixista e vocalista dos Milene e Seu Três Homens)


Há duas coisas férteis em amor e desgostos de amor: a adolescência e o submundo dos artistas rock.
Quando falo da Milene não o faço com as palavras todas que a sua existência exige. Não tenho palavras que cheguem para uma criatura tão potente e duvido que haja palavras suficientemente belas para descrever uma personificação tão poderosa da perfeição.

A primeira vez que vi Milene foi num concerto no Tanga's, um bar nos arredores da escola secundária. Na altura, a banda chamava-se "Nome Curioso". Tinham um nome curioso. Tinham bateria, guitarra, teclas, baixo e, claro, a voz e a presença e o espaço ocupado e o ar inspirado e expirado por Milene. Apaixonei-me. Devia ter catorze anos. De certeza que tinha catorze, estas coisas ficam bem marcadas. Eu sei que tinha catorze. Ou quinze. Após o concerto, resolvi que ia fazer três coisas: acompanhar todos os concertos dos "Nome Curioso" até conhecer a Milene; aprender a tocar guitarra; e a terceira é íntima. Só posso adiantar que tem a ver com a inocência e que tudo tem um fim, incluindo a inocência, e que a Milene era uma das personagens principais nesse assunto, contracenando comigo, assim num ambiente escaldante, provavelmente num bando de trás do seu Fiat Uno, que na altura era novo e até tinha auto-rádio. A Milene era três anos mais velha que eu e já podia ter carta de condução e Fiat Uno.

Acompanhei Milene e a sua banda durante sete meses, uma semana e três dias, até que a consegui conhecer. Apresentaram-me. Deu-me um beijo na cara, as minhas hormonas reagiram e ela riu-se. "O puto tem pinta". Virou-me as costas. Um objectivo cumprido. Entretanto, em sete meses e tal, já tinha aprendido os acordes básicos, algumas escalas simples e uns dedilhados janotas. Pouco tempo depois, a minha vida mudaria: à entrada do Bloco C, no qual eu tinha a maior parte das aulas, um cartaz de aspecto gastro-punck anunciava em garrafais "PRECISASSE GUITARRISTA!!!". Percebi que era da autoria da Milene... Por alguma razão, já conduzia um Fiat Uno e ainda andava no 10º.

Fui ter com ela. Olhou-me, riu-se e exclamou bem alto "Olha o puto. Tu és giro, puto... és virgem?" Riram todos, riram muito e as cervejas continuaram a rodar. Mas não me fiquei. "Por acaso, sou", respondi, severo. "Mas podemos aprofundar o assunto", completei. Os músicos dos "Nome Curioso", que dedicavam cada minuto da sua vida a adorar Milene e a segui-la para toda a parte (menos para o WC das raparigas, que era proíbido... mais ou menos), levantaram-se e aproximaram-se de mim. Um pôs-me a mão no peito, outro soprou-me fumo à cara. Já me preparava para resistir, lutando. Mas Milene irrompeu pelo meio do gang, afastou-os, pousou a sua mão no meu ombro e disse "Como é que te chamas mesmo?"

Duas semanas depois, surgia uma nova banda e eu era o seu guitarrista. "Milene e Seus Três Homens". O baixista e o guitarrista dos "Nome Curioso" saíram, protestando contra a minha entrada na formação. Milene ficou com o baixo, embora num formato a lembrar Sid Vicious ao vivo... Quando demos o primeiro concerto, três meses mais tarde, no Tanga's, já eu tinha uma opinião formada acerca dos bancos de trás do Fiat Uno.

(continua)
 
sexta-feira, dezembro 03, 2004
  Fétiche #1
Sou uma pessoa sociável e mentalmente saudável. Sempre consegui fazer amigos, mobilizar multidões, ser bom conselheiro e fazer o quatro até às sete imperiais. Mas, sendo artista e, acima de tudo, Criador, tenho sensibilidades que me desviam do padrão, isto é, não sou um absoluto apreendedor-praticante da suposta normalidade social - essa coisa ambígua, geralmente fruto de uma moral generalizada, mas oca, que se impõe pela via democrática: "se a maioria diz que é assim"...

Posto isto, tenho a confessar-vos que, por vezes, tenho no meu segredo desejos que considero "imorais". Por exemplo, este (é mauzinho; as pessoas mais sensíveis devem suspender a leitura do texto no ponto final que segue.): eu era contrabaixista, usava botas de cowboy e tocava numa banda de folk-hard-core. A meio de um concerto no CCB, com o Grande Auditório cheio de personalidades distintas e mulheres muito arranjadas, fazia stage-diving. E continuava, sempre sem parar de tocar, em cima da multidão que gritava, em delírio. E as minhas botas tinham esporas.





(Guitarrista Famoso, embora pouco habituado ao calçado e ao contra-baixo, prepara-se para enfrentar o público exigente e as mulheres arranjadas da plateia do CCB)
 
quinta-feira, dezembro 02, 2004
  Encore!
(Os católicos chamam-lhe "Ressurreição"; o Eminem chama-lhe "álbum".)

O apreço do público é a única recompensa verdadeiramente valiosa para o artista enquanto ser humano - obviamente, no campo da Criação, a única recompensa, em toda a linha, é o prazer de criar.

Se o público pede encore!... Deixem-me ligar o amplificador.



Ora, por onde é que eu começo? Alguém tem uma preferida?
 
A música vista por dentro. A vida tocada em guitarradas ruidosas. Cuidado com o feedback.

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