Querida Guitarra
sexta-feira, abril 30, 2004
  Trovador Errante
Atravesso actualmente uma fase de criação que me atrevo a classificar como "rica". Esta riqueza advém sobretudo dos pequenos grãos de sabedoria que humildemente fui reunindo no meu armazém dos conhecimentos - falo na perspectiva do criador, que o sou.

São alguns anos de estradas, aplausos e feedbacks nocivos ao aparelho auditivo. Os maços e maços de tabaco - que, depois de vazios e perfilados indianamente, perfariam uma carreira de mais de 370 metros de comprimento (se não contar com os maços de Marlboro 100's, que medem mais dois centímetros, aproximadamente) - revelam-se, com o passar dos anos, verdadeiros fardos de fumo e cinzas condensadas que me prejudicam a cadência respiratória e a capacidade de me auto-insuflar. A terra batida que eu já palmilhei, as tábuas de palco que eu já pisei...

Um artista - mesmo um artista como eu - tem momentos de lucidez. É então que decide fazer uma pausa, repensar as rotações a seleccionar no gira-discos da vida e concluir qualquer coisa. Eu concluí que a calma me faz falta. Pousarei os pés nesta terra quente e buscarei, atento mas em descanso, a minha própria iluminação. Acredito que a essência que me moveu durante a adolescência perturbada e rápida se mantém intacta. O que mudou foi a ânsia com que cuido dela: serenei. Doravante, tentarei saborear os dias como se cada um deles fosse uma travessa de caracóis, inofensiva e saborosa, numa esplanada de um litoral solarengo e manso.

O primeiro passo está dado: a guitarra está ensacada. Para já, dedicar-me-ei ao violão. A primeira composição acústica já está pronta e a letra reza em português. É um pouco autobiográfica, mas vale a pena. Chama-se "Trovador Errante". Não divulgarei o formato nem os acordes, uma vez que se trata de um inédito ainda por registar na SPA.

"Trovador Errante (Guitarrista)

Decadente e solitário
há quem me chame o mais errante trovador
escrevo a sós este diário
dedilhando a serpentina do amor
sem coragem nem destino
vou voando na vertigem do lugar
de um eterno feminino
doloroso que eu insisto em adorar
nas partidas que eu chorei
nunca foi vontade minha não voltar
e as musas que eu amei
esculpiram no meu corpo o seu cantar

(refrão)

hoje é dia de voltar p'ra casa
hoje é o dia do regresso aqui
hoje é dia de voltar p'ra casa
desde sempre
este é o dia em que eu vivi

comi pó com o coração
nos caminhos que iam dar a toda a parte
quis a purificação
desdenhei a glória efémera da arte
conheci gente maior
de entre a gente que povoa toda a Terra
fiz bandeira do amor
nas trincheiras em que a vida soa a guerra
nas manhãs em que acordei
solitário enfrentei em dó menor
solidões que eu dedilhei
sendo sempre o mais errante trovador

(refrão)

hoje é dia de voltar p'ra casa
hoje é o dia do regresso aqui
hoje é dia de voltar p'ra casa
desde sempre
este é o dia em que eu vivi"

Escusar-me-ei a interpretar esta letra, pois não subestimo as minhas duas leitoras.
Só espero que esta composição não esteja condenada à gaveta perpétua. Espero um dia ter o prazer e a honra de a interpretar frente a uma plateia repleta, comovida em silêncio.


 
  Questões pertinentes. Acho eu.
Interrogo-me frequentemente, em especial antes de adormecer e depois de acordar, sobre o que será que significam certas coisas.

Uma delas é o letreiro WC nas portas dos nacionais lavabos. Já sei que é linguagem de entendimento internacional e não tenciono, de forma alguma, armar-me em patriota defendendo o termo luso para a divisão dos asseios. De qualquer modo, continuo sem saber o que significa WC.
Agradeço esclarecimento sobre a situação.

Da mesma forma, ignoro a intenção de David Fonseca em determinados acidentes do seu percuso lírico-cançonetista. Onde é que o David quer chegar com "put me on your super-market list"? E já não falo do profundo "my car and my friends" em contraponto com "my friends and my car", dicotomia que supera, com expoente matemático na área do Zen, o meu modesto entendimento.

Possuo igualmente, confesso, algumas dúvidas dispersas por outras áreas, uma vez que, como deverão imaginar, não dedico a minha vida pensante exclusivamente à observação de Silence4 (subprodutos incluídos) e mictórios públicos. Temos, por exemplo, na literatura portuguesa uma questão dois-em-um. E esta, estimada audiência, é uma dúvida de contornos transtorno-acumuladores. Falo, evidentemente, do fenómeno Margarida Rebelo Pinto.
Vou dividir a questão. Primeiro: por que razão um livro chamado "I'm inlove with a pop star" é considerado literatura portuguesa?
Segundo: por que razão qualquer livro escrito pela Guida é considerado literatura?

São estas questões que me atormentam. Paz de espírito?! Mas como é que eu posso ter disso?!...
 
quinta-feira, abril 29, 2004
  Cataclismo (versão revista e emendada)
Andava eu na secundária e tinha os cabelos compridos. Ainda tenho, mas já não ando na secundária. Ela chamava-se Cristina e eu gostava de punk-rock, na onda da Califórnia. Claro que os Bad Religion estavam no meu altar - e isto não faz de mim uma testemunha de JEOVÁ (este blog não descrimina religiões: trata todas por igual. Mas os JEOVÁS ... cala-te boca). Bom, eu estava a falar de música... de punk-rock. Rancid e Pennywise povoavam igualmente o meu imaginário pós-pueril - o meu sonho era dar um concerto para 35 pessoas num sítio onde só coubessem 15, mais os amplificadores, os tripés e as peças essenciais da bateria, tudo aos pulos, com os cabelos pintados de verde e rosa-chock, dependendo da intensidade do mau-gosto. Também simpatizava, na minha faceta mais pop, com os dementes Green Day (ninguém faz uma música a cantar "When I come arround"...). Mas isso era segredo, que era música mais para os mariquinhas e que, ainda por cima, passava na rádio. Tudo isto para contextualizar as minhas duas leitoras (já devidamente identificadas num blog da concorrência) relativamente ao período em que eu vivia. Era só felicidade. E um piercing na língua, para encaixar no da Cristina (que também ficava na língua...).

Nesta altura endemoninhada da minha pós-infância, já eu arranhava D'Addarios 0.11 (do melhor para os power-chords) na minha, hoje obsoleta mas então objecto de cobiça, Squier coreana azul-bebé. Tinha uma banda, toda muito alternativa. "Brainian Sonoplasthya Woke-up the Dogs". Era um nome engraçado, mas nunca ninguém o percebeu. Quando começávamos os concertos (demos três), o N.'o' K. (nome suprimido de modo a preservar o anonimato), que era vocalista e berrava com a alma - dele, minha e dos outros... -, gritava ao microfone: "Boa noite Vila Novaaaaaa!!!! (bruaaaahhhhhh do público em resposta) Nós somos os Brainian Sonoplasthya Woke-up the Dogs!!! (silêncio do público, entreolhando-se e espalhando a sensação de incógnita pela atmosfera densa e fumarenta da garagem do meu pai). E o concerto começava assim.

A Cristina só assistiu a um concerto dos Brainian Sonoplasthya. E nem assistiu ao concerto todo, saindo a meio, alegadamente por falta de "condições psicológias e emocionais". Acontece que a nossa set-list incuía um som que eu dedicara a uma outra miúda, a Xana, que era feiinha e morava na Arrentela. A música chamava-se "Cataclismo" e ia assim (já não me lembro bem dos acordes...):

"Cataclismo (Guitarrista/Brainian Sonplasthya)

eras
a miúda mais querida
da Arrentela para baixo
num mapa que só eu conheço

eras
uma gaja timída
sabias tocar baixo
do final p'ró começo

se mudares
será um cataclismo
pior do que internacional

os teus ares
são gazes do FEMINISMO
de origem acidental

(refrão)

o teu desejo era aumentar os seios
mas não tinhas os meios
e eu gostava de ti assim

o teu sonho era ser mamuda
mas acredita miúda
eras ideal p'ra mim"

Repetíamos várias vezes a letra e o dobro dessas vezes repetíamos o refrão. Nunca mais vi a Cristina e a Xana acabou por fazer a operação.
 
quarta-feira, abril 28, 2004
  Querida Xobineski, quero que saibas que (entra a guitarra, dedilhado mansinho)
Desde o dia em que partiste
my love
que je suis beaucoup triste
because
embora nem tudo rime
my dear
tenho o feeling que é crime
sweet pumpkin
isso de tu ires embora
ma xuxu
e o pior de tudo é que agora
my wild orchide
ma vie est so empty
pois foi a ti
que eu escolhi
aujourd'hui

Nunca mais eu serei
minha coisa fofa
nem príncipe nem rei
life's tough. Huh!
pois minha dama fugiu
she's crazy
nem tugiu nem mugiu
i'm crzy aussi
e eu fui feito p'ra ti
pois oui
eu sou feito p'ra...
ti.
 
  Lírica Reinínhica
Ou "Como usar a língua como deve ser".

Confesso: de entre os compositores e letristas portugueses, admiro bastante o trabalho de criação de Rui Reininho. Isto, não desfazendo de vários outros, que, felizmente, Portugal é basto em prodígios do letrismo cançonetista - e agora não estou a ser irónico. Contudo, o Rui tem um estilo fascinante de contar histórias cantadas. Dá voz a melodias que, sem essa mesma voz que traz a história, seriam absolutamente banais - salvo excepções, porém raras, a razar o zero pequenino.

O Rui consegue coisas difíceis. Sabe ser romântico sem ser lamechas; sabe ser irónico sem ser brejeiro; sabe satirizar sem ser gratuitamente mal-dizente; sabe ser introspectivo sem cair na depressão; e, acima de tudo, sabe ser divertido sem fazer palhaçadas. Existem certas músicas dos GNR que ouço simplesmente pelo prazer de saborear aquelas letras, bem medidas, bem inventadas, às vezes esquisitas, quase sempre surpreendentes. Mais: quando o Rui não sabe o que fazer com uma letra, desenrasca-se. Nem que para isso tenha que ir buscar palavras estrangeiras. Mas fá-lo sempre (ou quase, que não lhe conheço tudo) sem rimar a martelo, de uma forma lógica em que as palavras e as ideias se encadeiam naturalmente. O Rui sabe escrever.

"(...) todos sabem que me escondo na Bellevue
ninguém comparece ao meu rendez-vous

os meus amigos enterrados no jardim
e agora mais ninguém confia em mim

era só p'ra brincar
ao cinema negro
os corpos no lago eram de gente
no desemprego"

(Bellevue)

"faz-me impressão o trabalho
que se tem ser superficial
faz-me impressão e baralho
o vulgar e o intelectual

sinto depressão conforme
perco tempo essencial
sofro uma pressão enorme
p'ra gostar do que é normal (...)"

(Impressão Digital)

Haverá muitas mais pérolas do Reinismo-Gênérrita. Mas agora não tenho tempo.
 
terça-feira, abril 27, 2004
  Análises etimológicas - II
"Diplomata".

Substantivo comum que resulta do acasalamento extra-conjugal entre o termo fenício contemporâneo "diplus" (decorador, em português) - declinável em sete declinações: nominativo, genitivo, acusativo, legislativo, rotativo, dativo e estranho - e da palavra brasileira "mata" (área florestada sem plano de ordenamento do território, em português). Significa, em tradução livre para a língua de D. Duarte Pio, duque de Bragança, qualquer coisa como "agricultor".
 
  Análises etimológicas - I
"Homem".

Expressão idiomática condensada monovocabular, sem dúvida resultante da contracção da expressão coreana "ho" (em português "tá-se?") com o termo americanizado "men" (em português "pá"). É, portanto, uma expressão que se aplica no cumprimento de outrém. Tipo "Ho - men!". Geralmente, recebe como resposta um lacónico "yá! Tá-se" que significa, em português arcaico, "vai-se andando".
 
segunda-feira, abril 26, 2004
  Abril, um mês difícil
Era Abril e ela era casada: não podia acabar bem. Em Abril águas mil, com ou sem revolução-evolução e o Porto foi campeão. Uma vez mais. Contudo, foi merecido. No fim de contas, ela era casada, logo, não podia acabar bem.
 
sexta-feira, abril 23, 2004
  Revolução de Abril
Para o ano terá 31 dias, contados de trás para frente e virá a seguir a Maio.
Também se lhe pode chamar "remodelação", mas não queria estar pr'aqui a falar de política.
 
quinta-feira, abril 22, 2004
  Invenções que eu considero importantes:
A roda. Sem utilizar o conceito de "roda", complete as seguintes afirmações:

-A Terra anda à _______ do Sol.
-O ponteiro do relógio _______ sempre para o mesmo lado.
-Tenho a cabeça a andar à _______.
-O meu chefe tem uma ______-dentada na cabeça a fingir de cérebro. Está ferrujenta.
-Levas uma chapada que até vais de _______ (não usar linguagem vernacular).

Como se pode ver, a roda é omnipresente. O que seria de nós sem a roda?
 
  Invenções que eu considero importantes:
A roda. A roda permitiu que o Paulo de Carvalho compusesse uma canção com o refrão "os meninos à volta da fogueira". Numa versão ancestral da composição, "à roda da fogueira" era a expressão utilizada em vez de "à volta da fogueira".
 
  Invenções que eu considero importantes:
A roda. A roda possibilitou que o povo português inventasse a malha do chinquilho subvertendo a posição natural da roda, de vertical para horizontal. Isto, tudo em ferro e com um buraquinho no meio.
 
  Invenções que eu considero importantes:
A roda. A roda deu origem à bola e a bola, por sua vez, deu origem a objectos tão marcantes na história da Humanidade como a tangerina ou o limão (este, numa fase posterior de exploração do conceito "bola").
 
  Invenções que eu considero importantes:
A roda. Sem roda não havia carros e sem carros as pessoas tinham que ir de combóio para todo o lado.
 
quarta-feira, abril 21, 2004
  King Salomon e a engenharia
Aos 16 anos achei que o planeta Terra era demasiado apertado. Tentando solucionar o problema de espaço e de conforto, compus duas mochilas e decidi viver em Lisboa - "a" capital, provavelmente aquilo que, neste país, mais se assemelha à "Europa", conceito então abstracto.

Chegado a Lisboa, pensei que o planeta talvez até nem fosse assim tão apertado, apesar da falta de espaço nos transportes públicos. Sobrevivi um ano, dois meses e quatro dias, a viver em casa de um amigo meu que, entretanto, viera estudar para a faculdade para ser cursado com superioridade. Ele estudava engenharia de qualquer coisa. Eu não estudava nada, parei com isso de ser estudante. De início, os fins de tarde à porta do metro no Saldanha - com guitarra afinada, muito feeling e um gorro velhote dos LA Lakers (ainda dos tempos gloriosos do Magic) no chão, de boca aberta - davam para duas refeições por dia, café incluído. Foi então que comecei a fumar.

Duas consequências imediatas: com a mudança de voz e o novo vício, o falsete esfumou-se, levando a acentuadas quebras no RDB - rendimento diário bruto; por outro lado, e mesmo sendo Golden American (380$00 por 19 cigarros em pacote mole), a despesa acrescida em contraponto à quebra das receitas indiciava o início de um período de recessão. Tornava-se imperioso, urgente, iniciar a retoma.

Tornei-me paquete - a pé - num jornal diário da cidade. Ganhava pouco, mas o suficiente para aconchegar a carteira que, nesses dias, era mais solitária que eu: por esta altura, conheci a Patrícia. Decidimos formar uma banda, eu (guitarrista), ela (vocalista) e o meu amigo da engenharia (baterista). Faltava-nos um baixista. Arranjámos nome e tudo: King Salomon's Worst Thought. O nosso objectivo era fazer um som pesado mas bem elaborado - nessa altura eu não ligava muito à pureza do rock, à crueza e simplicidade dos três acordes em sequências de quintas atrás de sétimas atrás de quintas... por aí fora, até estabelecer um esquema circular. Preferia a sofisticação do progressivo.

Não chegámos sequer a ensaiar. O único instrumento que tínhamos era a minha Ibañez semi-acústica, com um jogo misturado de cordas nylon (as graves, bordoadas) com aço (as restantes). Mais tarde acabei por acrescentar uma de bronze, no ré - a de nylon partiu-se quando a Patrícia, durante a iniciação à guitarra, tocava, com desprezo e sobrepotência, os quatro acordes do "Rape Me".

Os King Salomon's Worst Thought ficaram pela "boa ideia". Cheguei a compor umas linhas melódicas e duas ou três letras, mas nem deu tempo para as mostrar: tudo se desfez quando, um dia, ao chegar mais cedo do jornal, encontrei a Patrícia e o futuro engenheiro a estudar qualquer coisa para uma cadeira do curso dele. Ainda hoje penso se ele não estudaria engenharia anatómica.
 
terça-feira, abril 20, 2004
  Hoje: um micro-conto
Van Gogh pinta K.

Vincent ergue o pincel e desencadeia o processo: pinta um castelo longínquo no inferno castanho, a treva de K.
E K. salta da tela, decidido.
K. veste-se de Vincent, que deixa de existir.
Mas K. larga o pincel.
K. sai à rua e traz um cutelo na mão.
Exclama: "vinde a mim, povo absurdo, que vos corto as orelhas!"
Ninguém lhe dá ouvidos.
 
segunda-feira, abril 19, 2004
  Alcalina
A minha primeira música chamava-se assim. "Compúzia", como diria o Carlos Paião ("Meia-dúzia"), já lá vão uns anos. Talvez dez anos, lembro-me que a "compus", se é que o termo "compor" se pode aplicar, por alturas do suicídio de Kurt Cobain. Só não me recordo se foi o trágico acontecimento que influenciou a minha lírica ou se foi o contrário... Para quem achar que estou a exagerar, fiquem sabendo que os Lunatic Alligator Club Band - a minha banda da época - tinha muita audiência em Seattle e arredores, Olympia e Aberdeen incluídas. A "Alcalina" foi uma música - disto eu recordo-me - que nasceu de um poema que um amigo meu tinha escrito. O J. (não revelarei o seu verdadeiro nome) andava a ler Álvaro de Campos e o frenesim das máquinas febris deste heterónimo pessoano possuíam-no. Isto é, ele tinha febre e escrevia. Daí talvez possa explicar-se a densidade da sua lírica e a mensagem global do poema. Era um poema longo, pelo que publicarei aqui apenas algumas estrofes. Julgo que o J. não irá levar a mal. Suspeito até que ele nem tem internet, portanto, não haverá problema. Quanto à letra da música, penso que não vale a pena reproduzi-la. Posso apenas adiantar que, ao nível da poesia, ficava muito aquém da obra do J.

"A Pilha Efervescente (por J., amigo do Guitarrista)

Não és monte mas és pilha
e acumulas
um universo crescente
no teu corpo metálico
redondo
oblongo
contrafeito em Taiwan ou nos arredores de Guimarães

(...)

em teu silêncio de sepulcro
nunca dizes nada
mas dizes sempre Tudor

(...)

se explodisses serias ruidosa
como um balão
quando rebenta
kabooom kaboooom kaboooom
explodirias em três fases
e serias trifásica
como uma tomada

(...)

és independente
não tens disjuntor
e assim não te disjuntas
pois claro! Injustiça do criador
Oh! malogrado objecto!
Oh! fantástico unificador de electrões descomunais
que me arrancam o sono
e as vértebras ao pensamento
a-uuuuu a-uuuuu a-uuuuuu

e o pensamento flecte, alonga, insiste
e eu desisto
a-uuuuu a-uuuuuu a-uuuuuu

sou um lunático incandescente
como uma piranha eléctrica e herbívora
e dou à luz
efervescente
uma pilha de nervos!
a-uuuuu a-uuuuuu a-uuuuuu

(...)

fui ver
era o stress"

Gostaria apenas de acrescentar que o J. tinha apenas 16 anos quando escreveu este poema. É obra!
 
sexta-feira, abril 16, 2004
  João Pedro Pais
Não conheço a totalidade da sua vasta obra. Felizmente, penso eu. Contudo, sinto-me suficientemente à vontade para desabafar convosco: este meu companheiro de estrada pelos acidentados caminhos da música é mais um transtorno-acumulador. Que espécie de reacção cutânea pode provocar num humano de constituição normal um refrão que diz "é mentira! é mentira!"? E se for repetido várias vezes, num prolongamento que excede - e com brutalidade - o limite da paciência e da tolerância auditiva? "É mentira! É mentira!"... além do mais é um plágio - ou seja, um transtorno-acumulador dentro de um outro transtorno-acumulador (ver post sobre "Plágio") - de uma cantiga popular portuguesa, que ia assim:

"é mentira, é mentira,
é mentira sim senhor,
eu nunca pedi um beijo,
quem mo deu foi meu amor"

Com vantagem para a cantiga popular pela superior complexidade lírica. Isto porque se depreende que JPP (não confundir com Pacheco Pereira, que esse não compõe. Ainda.) chega ao ponto do "É mentira!", esquece-se do que é que é mentira e repete, numa tentativa de recuperação da memória, "É mentira!". Mas nunca se chega a saber que raio de mentira é essa. No caso da cantiga, sabemos: é mentira que a sujeita pediu o beijo, tratou-se apenas de uma oferta singela, não de um pedido descarado.

João Pedro Pais é um ser irritante. E essa irritância é agravada pela atenção que lhe é dispensada pelas rádios e televisões portuguesas de cada vez que o trovador decide alimentar o mercado musical nacional com uma dúzia de reciclagens mal paridas de cançonetismo obsoleto, recheadas de verborreia que, sendo esforçadas, não chegam para ultrapassar um Tony de Matos ou um Carlos Mendes em matéria de romantismo. E que respeito merece uma personagem que canta para a sua amada qualquer coisa do género: eu sou "o átrio da escada para tu sentares"?! Mas que miúda será essa que se sente lisonjeada por ter à disposição "um átrio da escada" para se sentar? Porquê um átrio? Um átrio da escada?! Ó, caro amigo... ninguém se senta no átrio da escada a não ser que lá existam bancos, cadeiras ou sofás. E, nesse caso, a pessoa não se senta propriamente no "átrio da escada". Senta-se no objecto... "o átrio da escada para tu te sentares"... onde é que ele quer chegar com isto? Quer que a rapariga se sente no chão? Por que não "o degrau da escada para tu te sentares"?! Acho que fazia mais sentido. E sempre era mais confortável para a miúda, especialmente se a escada fosse de madeira e tivesse uma carpete fofa.
 
quinta-feira, abril 15, 2004
  Plágio
Há coisas que odeio, por um lado, e que me deprimem, por outro. São uma espécie de transtorno-acumuladores, produzem-me baques cerebrais, arritmias, estranhas formas de asfixia lenta e, mais grave, cãibras nas falanges. Desta lista constam objectos, atitudes, nomes, formas, animais, de tudo um pouco. Até flores - nunca irei simpatizar com a sardinheira, dê por onde der. Mas, no topo desta lista está o "plágio". O plágio tira-me o sono, tolhe-me o estômago e é ilegal. E só menciono este nome horrendo - "plágio"...- a propósito de uma música de Jorge Palma que me está na cabeça desde que acordei hoje, praticamente de manhã. Eu gosto de Jorge Palma. Mas sinto-me plagiado sempre que escuto esta música ou, pior ainda, quando acordo e a música já lá está, dentro do meu cérebro mesmo antes de eu o ligar. Ecoa-me pela cavidade craniana com gravidade e não tenho outro remédio senão cantarolá-la no banho num tenebroso exercício de expurgação. E nem isso resulta, na maior parte das vezes.

Há uns tempos atrás escrevi uma música. Houve quem a etiquetasse de "canção de amor", houve quem fosse mais longe e a epitetasse de "chanson française em português". Recuso ambos os títulos. Era simplesmente rock. Só que falava de paixão e desejo. Não era lamechas e, muito menos, uma aproximação à arte de Linda de Suza (chanson française em português?! Haja respeito...). Como a esmagadora maioria das minhas composições, era uma coisa simples. Gosto de seguir os padrões do rock original e parece-me que os excessos de criatividade, juntamente com tiradas mais virtuosas e mesquinharias elaboradas, acabam por distorcer a música - no sentido errado da palavra "distorcer", obviamente. Aquilo que deveria ser puro e simples torna-se complexo e sofisticado. Há até artistas que perderam imenso, estigmatizados pelo fenómeno do "deixa-me cá elaborar um bocadinho mais". Grande exemplo disso é o (ex-)popular Paco Bandeira. Trocar a simplicidade de "Ternura dos Quarenta" ou "Contrabandista" por composições quase eruditas como as de bandas sonoras de telenovelas ("Roseira Brava" ou "Os Lobos") praticamente apagou este cantautor do mapa musical português. Eu não sou assim: gosto das minhas músicas simples, sejam elas baladas de levar às lágrimas ou arrepios de punk em vertigem. Três acordes chegam muito bem para povoar um compasso! E foi seguindo estas regras que compus "Período". Chegado o refrão, entrava em Lá maior/Si maior/ré menor (sustém o dobro do tempo aqui); repetia a volta até ao Si e aí partia para um desfecho extasiante, em descida mi menor/ré menor/Lá maior (sustém o dobro do tempo). A letra, nesta parte, também rejeitava qualquer tipo de academismo: ia directa ao assunto:

"eu sou um tipo meio borrego
toda a gente acha que sou cego
principalmente essas miúdas do teu 'gang'

sou uma espécie de vampiro
há dias mesmo em que eu deliro

a saborear
os restos do teu sangue
gosto de beber
gota a gota o teu sangue"

E continuava, em mi menor. Mas não vale a pena continuar. Até aqui, e exceptuando a miúda com quem eu andava que deixou de me falar, tudo ia bem. Até que, há mais ou menos três anos, o Jorge Palma lançou o seu último álbum. É aqui que tudo muda: a faixa 7 ("Espécie de Vampiro") é um completo plágio da minha "Período". Senão, veja-se: os acordes são os mesmos e a letra vai assim:

"sou um tipo de morcego
que é completamente cego
embora às vezes seja fã do Fritz Lang

sou uma espécie de vampiro
e quando sobre ti me atiro

é pra saborear
um pouco do teu sangue
é só pra beber
gota a gota o teu sangue"

A mim parece-me imitação, não? Com desvantagem para o Jorge, que a minha rima do 'gang' é muito mais natural que a dele - a martelo - do Fritz Lang. Onde é que ele foi buscar isso?
 
  Injustiça
O 25 de Abril aproxima-se lentamente, ao ritmo de um dia por cada 24 horas que passam - mais coisa, menos coisa, a velocidade a que o planeta Terra, essa porção imensa de matéria, roda sobre o seu próprio eixo, pelo que... se calhar não é assim tão lentamente quanto isso. Pela trigésima vez consecutiva, o povo português prestará atenção e homenagem a esse dia esquisito que muitos - eu, por exemplo - celebram mais por hábito do que por convicção. Não é que eu não entenda o seu significado. Simplesmente não senti a transformação que se assinala, não vivi a revolução que se imortaliza anualmente e não sei de que tamanho terá sido o prazer nem qual o formato do êxtase de quem se sentiu livre pela primeira vez na vida.

Sempre que o 25 de Abril vem aí, lembro-me de uma palavra: injustiça. Não pelo 25 de Abril em si, nem pelo "antes" ou pelo "depois" - tanto no "imediatamente a seguir" como no "até agora" e o no "agora mesmo". Injustiça outra, por causa de Baptista Bastos, personalidade incontornável da intelectualidade portuguesa, com obra vasta, mas acerca da qual muito poucos conhecem para além daquela frase que o sustenta e há-de imortalizar: "onde é que tu estavas no 25 de Abril?" Caro Baptista, no 25 de Abril eu ainda não estava cá. Satisfeito?
 
quarta-feira, abril 14, 2004
  Blogger than life
Enfrentava o teclado com precisão, como se discasse nas teclas o número de telefone da bela amada, mulher da sua vida, aquela que já não havia - e escrevia com fé.
Como se a cadeira fosse uma varanda tentadora, coisa vertiginosa e cheia de poder, abdicava da janela e da vida lá fora. Não havia rua naquele quadrado iluminado, naquela incandescência de pixéis alfabetizados, mas existia um universo imenso, intenso, atraente, sedutor. Intangível como um sonho inafantil.
 
  Not a Boy Scout
Não gosto de escuteiros. Mas houve uma altura em que me preocupei com eles. Não necessariamente preocupando-me com a entidade "eles" (escuteiros) propriamente dita. Mas prestei-lhes atenção, tirei-lhes o perfil, analisei-lhes a postura. Confirmei a minha impressão inicial e hoje afirmo ainda mais peremprtório: não gosto de escuteiros. Os lenços e os pauzinhos ainda escapam... estava a brincar. Agora, os chapéus e as meias de berloque são de uma dimensão trágica praticamente insuperável. Mas nem tudo é mau nos escuteiros: (des)inspiraram-me e eu escrevi uma canção - "Not a Boy Scout". É uma coisa muito rock, com cheirinho garage-punk e tempero new age. O refrão leva dois acordes (Lá maior/ré maior), com uma saída para uma bridge em Mi maior, esticadinho esticadinho, até à beira do infinito. Se a parte do "baby" for gritada com sentimento, uma coisa "cobainiana", digamos assim, deixa de ser uma canção e passa a ser um hino. Entra com bateria bem marcada, compasso quaternário simples, formato típico, com o baixo a vincar as marcações do ritmo num esquema quadrado. Não é muito imaginativo, mas resulta e, além disso, é sobre amor e escuteiros... E o vocalista entra assim, com voz mansinha mas pronta para a revolução:

"I don't wanna be your boy scout
I like capuccino and play frisbie
I hate your dog and your blue socks
even when you come all naked to me

(refrão)

I'm not your boy scout
no
I'm half here
and half to go

I'm not your boy scout
baby

I smoke cigarrettes
and other stuff
but it never gets even close
to become the enough

(refrão)

(solo em dó menor - usem a cromática e divirtam-se)

You're a bad girl on a skirt
I am cool and play guitar
there's no boobs under your shirt
I'm gonna be a rock star

(refrão)"

Esta brincadeira, de composição simples, completamente despretensiosa, esteve para ser o nosso single. Porém "A Black Blanket Under September Red Sky" (era para ser o título do álbum) nunca chegou a ver a luz do dia. Nem da noite. É o que se chama um álbum apagado...
 
  Uma forma de fama
O facto de ter iniciado este blog tem dado origem a um burburinho crescente entre os que me são mais próximos. Porém a sensação não é novidade para mim. Estou habituado a este tipo de coisas. A expectativa à minha volta, os olhares famintos pela next big thing blogueira, tudo isto é uma espécie de reminiscência de tempos idos. Refiro-me à época em que eu e outros três malucos formámos os Magnetic Sounds of Snails on the Parade. Cada concerto era uma experiência transcendental, a multidão em delírio - chegámos a ter assistências para cima de 60 pessoas, quando tocámos, certo fim de tarde, num descampado nos arrebaldes de Odivelas -, drogas leves a rodar de mão em mão. Houve quem fizesse sexo ao ar livre. Acho que ninguém filmou, mas ainda hoje me lembro perfeitamente da Marisa, uma loirita bem conseguida pela entidade parental. Obviamente que o Querida Guitarra conta chegar longe, tocando os ouvidos de uma sociedade surda e muda. Torna-se cada vez mais óbvio que formatos como este ou este são coisas ultrapassadas. E sei que os meus dias de glória não estão longe. Na verdade, a minha ambição desmedida mas consciente leva-me a crer que serei companheiro deste selvagem ou desta miúda no panteão da blogosfera. É uma questão de tempo.
 
terça-feira, abril 13, 2004
  Lembrança
Aqui há uns tempos, ainda eu tinha miúda, essa miúda viajou para fora do país, durante uns dias. Fiquei triste. Um dia ela ligou-me, como fazia todos os dias, e pediu-me para, quando chegasse, eu tivesse para ela "uma lembrança". Decidi compôr uma música e dedicar-lha. Era uma balada muito bonita, coisa simples, dedilhada em ré-maior/sol-maior/dó... Resulta sempre com as miúdas. A letra dizia assim:

"Come, hurry up
hold me, take me,
i'm your greatest prize
i'm your tender surprise

you must not expect
life expectancy
to come and tell you
you're too old"

Fui esperá-la ao aeroporto, de guitarra às costas. Nem levava papel, decorei a letra de propósito. Ela chegou e, mesmo antes de nos beijar-mos, toquei e cantei para ela, à frente das outras pessoas.

O pai dela riu-se. A mãe, que se chamava Antónia, coitada, fez má cara, franziu o sobrolho. Quanto a ela, a Maria João - era assim que se chamava -, esperou que eu terminasse e só se riu no fim. "Que merda de letra é essa?", foram as últimas palavras que ouvi daquela boca carnuda e bem desenhada. Aparentemente conheceu um estrangeiro que compunha melhores baladas.
 
 
Olá a todos. Antes dos primeiros acordes, aqui vai uma pequena apresentação.

Algumas coisas de que eu gosto: da minha Segovia (uma relíquia), do Benfica e de pão de Mafra, bem quentinho, com manteiga. E também gostava da minha ex-miúda. Mas isso era dantes.
 
A música vista por dentro. A vida tocada em guitarradas ruidosas. Cuidado com o feedback.

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