Sobre as pessoas que nos rodeiam - conclusões inconclusivas
Introdução:Quando digo "nos rodeiam" refiro-me a "nós, estrelas, artistas de gabarito". Podeis portanto desarremelgar a pestana: esta não será uma teorização sobre a gentinha medíocre a que o meu bom povo auditivo tem a indecência naïf de dividir em "amigos", "conhecidos", "colegas", "família" e "o chefe". Nada disso. Nos meios artístico-intelectuais a malta manda chapadas nas costas uns dos outros e trata-se por "chaval", "maluco", "camarada", "compincha" ou "palhaço". Sim, eu também conheço palhaços. E não, isto não é uma piada (?) nem tão-pouco uma frase com um segundo sentido mal disfarçado. Eu conheço MESMO palhaços, ok?
1. O pessoal que gravita em nosso redor - "nosso" significa "dos génios criadores", já se vê - é rês de origem diversificada e raramente demarcada. É claro que os "camaradas" ou os "compinhchas", aqueles raros com quem mantemos uma relação de relativa e contida admiração mútua, é tudo gente de bem, com o seu pedigree artístico: os tiques são-lhes espontâneos e naturais; a cultura geral é-lhes praticamente inata; o mau feitio vem-lhes das entranhas; fumam tabaco de caixa ou pacote mole. Já a malta menos dotada do ponto de vista artístico-intelectual (já nem misturo com "genialidade" nem "poder de criação") é detectável à légua: têm uma tendência deprimente para a depressão; imitam os tiques dos génios; bajulam os génios; fumam tabaco de enrolar; às vezes usam gabardinas; às vezes não; raramente têm ideias; mais raramente ainda alguém se preocupa com as ideias que têm. Fingem que têm mau feitio, chegam a forçar os amuanços - caríssimos, génio que é génio tem que fingir constantemente que NÃO está amuado! Nunca o contrário. Somos umas autênticas crianças birrentas e exigimos respeito ou então desatamos já a bater o pezinho e a fazer "bbrrrruuuuhhhhh" soprando pelo canto da boca. Perceberam a ideia? Isto não é imitável, já vem no organismo. Por cada Si de sétima seguido por um Lá menor, são três ou quatro jarras atiradas à parede! Por cada refrão em falsete, são meia-dúzia de copos de água na cara do técnico de som! Não é fácil. Mas perguntem às ex-mulheres do Picasso se, por acaso, sabem a definição de "sociopata".
2.Este pessoal assim mitra, que muitas vezes acaba por se dedicar à música pimba ou a outras formas de expressão subintelectual e desinstruída, pode ser perigoso. Claro, não é o seu QI que nos pode afrontar, não senhor. Mas, em contrapartida, isto é gente que se locomove à custa do mais poderoso e tóxico dos combustíveis: a Inveja!
3.Reparem, não é que a gente não os tope. Os tiques repetem-se e até são, provavelmente, hereditários: já os seus pais haviam bajulados os "doutores"; os seus avós ofereciam galinhas ao capitão para o filho não ir p'ró Ultramar levar tiros dos turras; os seus bisavós, que até mastro tinham para a bandeira da casa de Bragança, depressa interiorizaram as vantagens da vigorosa República; dos seus trisavós nem reza a história, mas decerto hão-de ter lambido o chão e as botas de qualquer senhorinho que se lhes aproximasse.
3. a) No entanto, esta manteiga que o "essencialmente pobre" (doravante, chamar-lhes-emos assim) teima em barrar sobre nós (errrr... ok, tentem não visualizar a imagem...) acaba por nos acalmar o(s) ego(s). Sim!, nós, os génios, temos egos duplos: um para se alimentar do mundo, outro para o arrotar em seguida. Pelo que qualquer expressão do tipo "és um génio", "és mesmo um génio", "és um deus", "és um deus genial", "sim, Guitarrista, sim, sim", "és o maior", "és um adónis e surpreendentemente ágil, ainda por cima", "é a melhor música que alguma vez ouvi" ou "faz vários filhos de uma assentada, a mim e às minhas amigas" é uma expressão que se arrisca a ser bem acolhida em nosso leito senhorial. Especialmente aquela do Adónis, pela qual nutro particular carinho. São delicadezas que nos amolecem, que nos derretem. Lá está, que nos alimentam um ego e certificam a digestão do outro. O "essencialmente pobre" é um ser dissimulado. Por vezes, quando é esperto o suficiente, chega a ser astuto: sabe como derreter-nos.
4.E a questão que aqui se põe nem sequer é relativa à falta de honestidade na sua atitude bajuladora: é certo que isto é gentalha que nos adora! É certo que vibram connosco! É certo que, no caso daquela do Adónis (um beijinho para ti, fofa, e para o resto do pessoal de Queluz de Baixo), há até quem... errr... enfim... se entusiasme e... e, às vezes, grite um... um bocadinho. Hru-hrum... Portanto, dizia eu que existe aqui um fundo de verdade na profunda admiração que nutrem por mim. Ou, se quisermos generalizar, que nutrem por alguns de nós. A tal Inveja que os move é, em simultâneo, o veneno que os consome, a adoração permanente e enraízada que lhes martela na cabeça, a toda a hora, a cada segundo "sou tão fraquinho, gostava tanto de ser como o Guitarrista, ai, ele é tão fixe e tão cool... ODEIO-O! ODEIO-O! ODEIO-! Porque o amo, porque ele é meu amo, o meu senhor, guru, mentor e eu... snif... eu não queria nada que isso fosse assim... eu gostava era de ser eu a ser ele... por favor... ODEIO-O! ODEIO-O! ODEio-o! Odeio-o... odeio...o..." Bom, acho que fui suficientemente explícito. Diria mesmo exaustivo. Praticamente.
5.Temos, portanto, que o "essencialmente pobre" é indivíduo sem estirpe, sem carácter e com uma ambição imensa. É gentinha capaz de - metaforizando, claro - se deitar na linha de comboio só porque pensa que nos pode fazer descarrilar. Mesmo sabendo que serão trocidados. E que devemos fazer quando isto acontece (a história da linha de comboio)? Eu, no meu caso, costumo não ligar. Finjo que não se passa nada. É que nem acelero: mantenho a locomotiva em velocidade de cruzeiro e assobio para o lado. Às tantas o "essencialmente pobre" acaba por perceber a ideia: não, tu não me interessas para nada; só gosto de ser bajulado e é por isso que te aturo. Se te desviares, podes continuar com a tua existência medíocre, venerando-me em frente aos outros e violentando o teu estômago com ódio mesquinho na tua privacidade. Agora, se não levantares essse rabo irrelevante dos carris, ver-me-ei obrigado a aceitar um novo verme no meu círculo de "povo auditivo mais próximo" - o lugar que ocupas, sendo inútil, permite-me levar a vida sem nunca me sentir frustrado.
6.Pronto. Era só para dizer isto. Espero que tenham gostado.