O amor deve vir dos ouvidos
Quer dizer, eu não sei meeeeeeeeesmo ao certo de onde é que vem o amor. Mas, por exemplo, quando as pessoas têm um ataque de amor à primeira vista, é provável que o tal amor venha - tal como o nome indica - da vista. Mas isto, posto desta maneira, é capaz de não fazer muito sentido. Por exemplo, se uma pessoa se apaixona por algo que ouve, então o tal amor deve vir dos ouvidos, certo? Quer dizer, falando do amor à primeira vista - embora, no caso do amor auditivo, esta expressão se torne meio desajustada. Chamemos-lhe "amor às primeiras". Tanto pode ser "às vistas", "aos ouvidos" ou, em situações mais liberais, "aos toques". Numa situação romântica, pode ser "aos perfumes" - numa situação romântica numa casa okupada pode ser "aos odores".
Agora, isto não é a revista Maria, com todo o respeito que tenho por essa publicação. Isto é o
Querida Guitarra. Não se trata aqui do "amor" e isso. Aqui fala-se de amor, mas é amor tipo... aquelas paixões, que vêm em flashes musicais quando ouvimos qualquer coisa que nos faz ficar meio zonzos, como quando estamos apaixonados. E faz-nos querer chegar a casa só para meter o CD a rodar e ouvir aquela determinada faixa e fumamos 5 ou 6 cigarros e ouvimos aquilo 10 ou 12 vezes, como zombies sorridentes, até que a fome nos desperta para a realidade e decidimos tornar-nos úteis. Então, levantamo-nos, hesitamos, ouvimos "só uma última vez e pronto".
Isto a mim faz-me pensar que o amor, no fundo, vem é da ignorância. Eu sou um bocado ignorante - naquele bocado relativo às coisas que existem e que eu desconheço. É um mal geral, não é só meu.
Uma coisa que eu ignorava era esta frase
I still only travel by foot and by foot, it's a slow climb, / But I'm good at being uncomfortable, so / I can't stop changing all the time. A minha ignorância fez-me apaixonar pelo que só agora conheci e a minha paixão fez-me ouvir repetidamente, over and over and over and over again, como se tivesse novamente 12 anos e ouvisse, pela primeira vez, os acordes iniciais do Smells Like Teen Spirit. Só que aqui é em calmo, belo, espirituoso e gracioso o que naquele tempo e naquele caso era revoltado, enérgico, agitado e angustiado - dores de crescimento, por certo.

Eu não sei o que se passava com o mundo, que me deixava andar distraído, ou com a própria Fiona Apple, que nunca me tinha chamado devidamente a atenção. Só sei que, de há dois dias para cá, só penso em chegar a casa e ouvir aquele refrão que me derrete
Be kind to me, or treat me mean /I'll make the most of it, I'm an extraordinary machine, naquela voz afinada e rouca, terna e atrevida, uma voz de provocação, jovialidade e café quente. Depois admiram-se que eu ande sorridente... claro que ando, estou apaixonado!